A mulher que saiu da caixa


Alair Toledo de Oliveira, o Ito do Teté
Certas situações nos pegam de surpresa e, dependendo do ocorrido o riso é inevitável. São aqueles momentos em que não tem como segurar.
Quem não se lembra da Casa Teté, uma loja bem surtida com tecidos, armarinhos, confecções, além de artigos de cama, mesa e banho. Pertencente aos irmãos Geraldo e Alair, o Ito do Teté, a loja era uma das mais tradicionais da cidade e ocupava o prédio onde hoje está a Deborah Cosméticos.

Geraldo Toledo de Oliveira, o Geraldinho Teté
Com uma frente ampla, a Casa Teté tinha quatro portas de acesso e balcões em um U, com prateleiras ocupando as paredes laterais e de fundo. A última porta, para quem desce a José Bonifácio, tinha um degrau mais alto na soleira e, como dava acesso direto ao lado interior do balcão, era fechada com uma caixa, dessas que embalam peças de tecido, compridas e com cerca de 40 centímetros de largura.
E foi ali, naquela porta, que tudo aconteceu. Foi rápido, mas como eu subia a José Bonifácio e ainda estava na calçada da residência dos Suzuki, pude presenciar o fato bizarro.
Uma freguesa, talvez sem saber que ali naquele degrau abaixo do piso havia uma caixa, acabou pisando onde não devia e caindo dentro da mesma. Com o impacto a caixa rolou para a calçada com a mulher deitada em seu interior.
Para meu espanto, ao ver a caixa rolar para a calçada, só tive tempo de presenciar aquela mulher bem vestida sair de dentro dela, levantando tal qual um zumbi desses de filme de terror. Sua ação foi tão rápida que não tive tempo nem para lhe prestar auxílio para se levantar e, como se nada tivesse acontecido, bateu nos saltos e deu no pé
Claro que fiz de tudo para segurar o riso. Mas, depois que ela se foi, como qualquer mortal, dei boas risadas.
Todos nós estamos sujeitos a situações como essa e com certeza sempre vai ter alguém para rir. À vítima do acaso só vai restar empinar o nariz e seguir em frente como se nada tivesse acontecido.

A mulher que abria portas


Minha avó Carmela Galli Papaléo e meu avô Antonio Papaléo,
ela oriunda de Nápolis (Itália) e ele de Barcelona (Espanha)
Quem conheceu minha avó Carmela sabe do que se trata. E com certeza vai concordar comigo.
Nascida no último ano do século 19 em Nápoles, na Itália, minha avó Carmela Galli veio para o Brasil com apenas três anos de idade naquela época em que a imigração italiana era muito grande devido a promessa de emprego e prosperidade do período pós escravidão.
Embora tenha vindo muito nova para o Brasil, conservava a língua italiana e era através dela, muitas vezes, que se comunicava com minha mãe. E foi assim que eu também acabei aprendendo um pouco do idioma da Velha Bota.
Vó Carmela ficou viúva muito cedo, meu avô Antonio Papaléo, um espanhol natural de Barcelona, faleceu acometido por um câncer em 54, anos antes de eu vir ao mundo. Mas, com sua força incomum ainda viveu por mais 12 anos, apesar de sofrer da mesma doença que ele.
Tive o privilégio de conviver com ela por apenas alguns anos. Quando eu tinha nove anos ela foi embora aos 67 anos.
Mas, nesse curto espaço de tempo pude entender o quanto valia a força de uma pessoa, seu dom de ajudar as pessoas e mostrar capacidade para tudo, embora nunca tivesse frequentado os bancos escolares. Sem dúvida, ela era uma pessoa incomum, muito além do tempo em que permaneceu por aqui.
Sempre pronta a ajudar, fosse quem fosse o necessitado, lá estava ela abrindo portas e resolvendo problemas. Quantas e quantas pessoas foram encaminhadas ao Hospital das Clínicas, na Capital paulista, graças ao seu conhecimento.
Os laços de amizade que mantinha com o médico Eurycledes de Jesus Zerbini abriam as portas daquele que era o maior hospital do país na época. Era só ela acompanhar o paciente até lá e a internação era providenciada.
Por aqui também fazia das suas. Lembro bem de um dia em que a Marta Ziliotto, que trabalhava na Cal Fortaleza lá nos Prados, havia perdido a condução que a levaria para o trabalho e minha avó, mais que depressa parou o primeiro carro que apareceu em direção da Avenida Brasil, sem se dar conta que era o rabecão da funerária.
Mesmo sem ser eleitora, por não ter cidadania brasileira e diploma escolar, era adhemarista convicta. Chegava a brigar, no bom sentido, para defender o político Adhemar de Barros, que chegou ao posto de governador do Estado.
Posso afirmar que embora tenha tido muito pouco tempo para conviver com ela, aprendi muito com aquela mulher de passos rápidos e pensamentos velozes. Aprendi que estender a mão para quem precisa é algo que devemos sempre praticar.
Já se vão mais de 50 anos de sua passagem para o andar de cima, mas para aqueles que a conheceram ela sempre vai estar em evidência. Seus atos jamais serão esquecidos por quem viveu aquele tempo.

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