Carne, queijo ou palmito?


Hideo Kashiba e a tradição do pastel
conservada até hoje pela família
Em uma época não muito distante, na metade do século passado, Itapira tinha os pontos prediletos das pessoas. Fosse para um simples cafezinho, um pastel ou uma bebida, cada um tinha seu local preferido.
E um desses locais, sem dúvida, era a Pastelaria Kashiba, que ficava na parte inferior do Palacete Anastácio, bem em frente a parte baixa da Praça Bernardino de Campos. Um local pequeno para o movimento que tinha, principalmente pelas delícias que comercializava.
Lembro bem das delícias que o Hideo Kashiba preparava, os pastéis de carne, queijo ou palmito, o café cheiroso e fresquinho e meu refrigerante preferido, a Cerejinha, que só ali era encontrada. Vez ou outra, sempre que podia, meu pai nos levava naquela pastelaria de balcões altos para o meu tamanho, mas com um cheirinho inconfundível de pastel frito na hora.
A tradicional Pastelaria Kashiba no Palacete Anastácio
Certos lugares, mesmo depois de tanto tempo, permanecem vivos em nossa memória. Assim como o Bar do Odilon, o Bar Central, o Itapira Bar, o Cine Paratodos, o Cine Rádio, o Cine Bar, o Bar do Edifício e o Chopão, a Pastelaria Kashiba formava o bloco de opções para quem frequentava a praça central da cidade.
Fosse nos finais de semana ou mesmo durante os dias de trabalho, era comum aquele pequeno espaço estar lotado de pessoas ávidas por um café fresco ou um pastel saboroso.
Cresci aprendendo a valorizar esses momentos que hoje permeiam a memória de quem viveu tudo isso. Lembro da forma gentil como o ‘seo’ Hideo e sua família tratavam as pessoas, desde as mais abastadas até mesmo aqueles que muitas vezes nem tinham o dinheiro suficiente para um pastel.
O Hideo se foi para o andar de cima, levou com ele uma parte de todos os que frequentaram seu estabelecimento, mas deixou uma família inteira formada por pessoas de boa índole. Marcou seu tempo nesse mundo e aqui deixou sua história.
Carne, queijo ou palmito? Não importava o sabor ou o recheio, o bom mesmo era sentir o aroma e o sabor daqueles pasteis.

Carnaval de rua e a disputa das escolas


Beto Passarella e Adilson Ravetta, dois grandes carnavalescos
Tudo começou com o Broskio da Negada. Um bloco carnavalesco criado em meados da década de 70 e que pode ser considerado o ponto de partida para a era de ouro do Carnaval de rua de Itapira.

Formado por jovens da época, o Broskio era a grande atração do carnaval itapirense naquela época. Sua contribuição para o crescimento da festa popular na cidade é inestimável e foi dele que nasceu a inspiração para a criação de escolas de samba.

Na segunda metade da década de 80 o Carnaval de Itapira era tido como um dos melhores da região. Suas escolas de samba disputavam, ponto a ponto, as notas dos jurados e o título de campeã.

Essa disputa, nem sempre saudável, fazia com que a cidade se transformasse no centro das atenções. Quem morava em outra cidade vinha para os bailes, para desfilar nas escolas ou simplesmente assistir aos desfiles.

Era o tempo da Unidos da Nove de Julho, Imperatriz da Santa Cruz, Acadêmicos da Vila Ilze, Mocidade Alegre da Vila Boa Esperança, Mocidade Unida da Vila Bazani e outras menos votadas. Aliadas aos blocos dos Bichos e Nheco, levavam multidões às arquibancadas da praça Bernardino de Campos.

Adilson Ravetta, Gordo Moraes, Fifo, Bujija, Neguinho, Claudio Maria, Paulinho Manha, Mano Colferai e tantos outros nomes eram as estrelas maiores desse espetáculo que culminava com a apuração na noite de quarta-feira de Cinzas, na Casa da Cultura João Torrecillas Filho.

A partir do início de janeiro as escolas buscavam o que havia de melhor no que diz respeito a passistas, músicos, cantores e alegorias com o intuito de vencer a disputa. Colocavam seus blocos na avenida as escolas como Nove de Julho, Imperatriz da Santa Cruz, Mocidade Alegre da Vila Boa Esperança, Acadêmicos da Vila Ilze, Unidos da Vila Bazani e outras menos votadas.

A multidão que lotava as arquibancadas montadas na Praça Bernardino de Campos delirava durante a passagem da escola preferida. Sem falar do Bloco dos Bichos e suas sátiras e a Banda do Nheco, que nasceu na década de 80 e ainda hoje encanta crianças e adultos.

A disputa das escolas era tão intensa que a Rádio Clube de Itapira dedicava boa parte de sua programação na divulgação das escolas e seus sambas de enredo. Os programas Clube do Ouvinte, do Dácio Clemente, pela manhã, e Super Plá, comandado por Paulo Marin, à tarde, atendiam ouvintes pelo telefone e entre as músicas pedidas estavam os enredos das escolas locais, normalmente gravados em estúdios profissionais.

Sem contar que à noite a emissora abria espaço para os programas carnavalescos comandados pela Conceição Pavezzi Dantas, que entrevistava dirigentes, passistas, costureiras e quem quer que fosse, desde que estivesse envolvido na folia. A audiência era maciça devido ao grande apelo popular que o Carnaval sempre teve na cidade.

Itapira, naquela época, vivia de forma intensa o Carnaval. Mas tudo isso acabou ficando no passado. O Carnaval de rua também perdeu o encanto. As arquibancadas, apesar da gratuidade, só lotam nas noites em que a Banda do Nheco se apresenta.

As escolas fecharam suas portas e apenas algumas insistem em desfilar, mais pela garra de alguns abnegados. A Rádio Clube, apesar de transmitir os desfiles, quando eles ocorrem, não enfatiza mais o Carnaval em sua programação, mesmo porque não há o que divulgar ou quem entrevistar.

Abro alas para o samba enredo da Unidos da Nove de Julho de 1980

Escola de Samba Unidos da Nove de Julho

Samba Enredo – Carnaval 1980 – em homenagem à Milton Guinesi
Autoria – João Adilson Ravetta
Interpretação – Luiz Hermano Colferai
Por trás de uma nuvem que passa
Um lindo acorde soou
Do céu transparente em fumaça
Um violão desabou

E caiu

Caiu, ninguém viu nem ficou
A saudade que Milton
Guinesi deixou

E o Dó

 é de quem dorme em prece
mas nunca se esquece
do seu violão

O Ré

O Ré diz que reina no céu
Lá junto com Noel
e ainda faz canção

E o Mi
No Mi o milagre da vida
que vem na avenida
hoje é celestial

E o Fá
Com 
faço a fantasia
cheia de alegria neste carnaval

E o Sol
Sol vai nascer quarta feira
e cidade inteira não vai mais cantar

No Lá
lacrimado estará
quem aqui não esta e não pode voltar

E o Si
O Si e o sinal de orgulho
que a nove de julho
no samba mostrou
manchando essas notas de encanto
de vermelho e branco o sambista cantou.


Camisa branca de gola vermelha


O quarteirão de casa, antes calçado com
paralelepípedos disformes, era nosso campo
Era uma vez um grupo de garotos que residiam no mesmo quarteirão. Todos eles tinham a mesma paixão: a bola.
Se fosse um conto ou uma fábula, bem que poderia começar assim, mas o fato é que tudo isso é real. Éramos garotos e, como a maioria deles, gostávamos de jogar futebol.
Naquele tempo qualquer terreno baldio servia para nossas peladas, transformadas em nossa imaginação em verdadeiros clássicos. Até mesmo a rua de casa, pavimentada com paralelepípedos disformes, era palco para nossos jogos noturnos.
Mas havia também os jogos contra times de outros bairros e nessas ocasiões era necessário ter nosso uniforme. Jogar sem camisa ou com a roupa do corpo não era de bom tom e havia a necessidade de um uniforme, mesmo que fossem somente as camisas.
E tínhamos também os dias de glória, esperados meses a fio, que era o momento de subir o escadão da Ladeira São João para enfrentar o time do Parque Infantil Narciso Pieroni. A disputa por vaga na fila para enfrentar o time do parquinho era árdua, tinha muitos times que queriam jogar naquele campinho gramado com traves pintadas em verde escuro.
Nossa sorte mudou quando o José Eduardo Rocha, que era nosso vizinho de quarteirão, ganhou um uniforme de presente. Eram sete camisas brancas com golas vermelhas em V e uma camisa de goleiro.
Era o que bastava para vestir nosso time. No campinho do parque jogavam sete na linha e um no gol.
Era difícil ganhar daquele time, mas nossa estatística no confronto era das melhores, com equilíbrio entre vitórias e derrotas. Sempre com nosso garboso uniforme branco de golas vermelhas.
Lembro de uma manhã qualquer de um dia de semana que fomos até o campinho perto do cemitério enfrentar o time do bairro. Chegamos na perua Kombi do Tinho Venturini e já descemos para o campo uniformizados.
Vencemos por 2 a 1 em um jogo difícil. No primeiro tempo joguei na linha e contribui com um gol de cabeça, no segundo tempo fui para o gol para revezar e dar vez para quem estava na posição poder jogar na linha também e acabei defendendo um pênalti.
São momentos inesquecíveis para aquele menino magricela de orelhas grandes que um dia envergou uma camisa branca de golas vermelhas e defendeu o time da sua rua como se estivesse jogando um clássico. Momentos inesquecíveis que jamais deixarão de ser lembrados.

Caixão não tem gaveta

Minha missão é cuidar de quem depende de mim
Um dia todo mundo vai embora desse mundo. Essa é a única certeza que temos durante nossa passagem por essas bandas.
Se vamos ser ricos ou pobres, só Deus sabe. O certo é que quando fizermos o embarque para a última viagem, o caixão, aquele em que nossos restos mortais serão colocados, não terá gaveta, cabide, cofre ou estacionamento.
Nunca me prendi por bens materiais, sempre quis ter apenas aquilo que provém, o que dá para o sustento, principalmente de minha pequena Mariane. Fui constatar isso somente depois que me tornei pai.
O dinheiro é bom? Sim, não nego. Mas é o mais importante de todos os bens? Nem de longe.
Para mim, o que vale mesmo são os princípios, a consciência tranquila e o sentimento do dever sendo cumprido a cada etapa. De nada adianta ser abastado se o espírito é pobre.
Sou capaz de dar tudo que possuo para ver a felicidade de alguém que esteja necessitado. Talvez por isso nunca tive muito ou apenas aquilo que era o suficiente.
Nunca fui escravo do dinheiro e nunca serei. Posso passar necessidade, deixar de comer, contanto que quem dependa de mim tenha o necessário.
Já passei por muitas etapas de penúria nessa vida e não culpo esse ou aquele, a não se eu mesmo, por isso. Mas, a partir do momento que do meu lado tinha um ser indefeso e que dependia de mim, enfrentei e venci inúmeros leões diariamente.
Tenho orgulho de ter sobrevivido a tantas etapas difíceis, como quando me vi sem emprego por ter sido dispensado do meu trabalho na administração municipal meramente por questões políticas. Saí do paço municipal com uma mão na frente e a outra segurando a mão da minha pequena, ciente de tudo que teria pela frente e estou aqui, cada vez mais forte.
Não poupo esforços para que ela tenha a melhor escola, boas roupas, um lar, comida decente e carinho, principalmente carinho. O resto, como se diz, eu corro atrás.
O dia em que me sentir incapaz de oferecer a ela tudo o que merece, então estará chegada a hora de embarcar naquele caixão sem cofre, sem gaveta, cabide ou estacionamento. Irei sim, mas irei feliz, sabendo que nunca deixei de me doar para ver alguém feliz e isso se chama riqueza de espírito.

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Alexandre Redondano e sua esposa Stella Maris A vida nos prega peças, mas também nos oferece amigos para a vida toda. Amigos que mesmo q...