A goiabeira


Minha casa na Comendador João Cintra tinha um quintal onde sempre havia pé de alguma coisa. Era pé de pêssego, pé de laranja, pé de mamão, de goiaba...
Minha mãe sempre gostou de cultivar frutas no quintal e lembro bem dos pêssegos enormes e saborosos que o velho pessegueiro produzia a cada temporada. Até que um dia um vendaval derrubou ele e lá se foram nossos pêssegos amarelos e cheirosos.
Limão galego e mexerica poncã eram o sonho de minha mãe, mas cada vez que ela plantava lá vinham as formigas saúvas e depenavam os pés. Ficavam parecendo pescoço pelado de frango, feios de dar dó, até morrerem.
Mas a goiabeira, essa era forte, resistia a tudo. Ou melhor, a quase tudo;
Eu vivia em cima dela, sempre buscando as frutas, apanhando para quem quisesse ou comendo ali mesmo em seus galhos. Eram goiabas vermelhas, suculentas e que amadureciam praticamente o ano todo.
A goiabeira ficava bem no fundo do quintal, cerca de um metro do muro que fazia a divisão com o fundo do quintal do Carlos Venturini, onde havia mangueiras, e com o final do quintal do maestro Américo Passarella.
Um dia, mais precisamente dia 23 de junho de 1973, uma vizinha pediu para meu pai se ele podia dar uma goiaba para ela. Imediatamente meu pai, de bom coração como era, desceu até o quintal pra apanhar a goiaba. Como eu estava em cima da goiabeira, pediu que eu apanhasse a fruta.
Eu conhecia aquele pé de goiaba de cabo a rabo, sabia onde podia subir e onde não podia, tanto que quando ia descer, ficava de ponta cabeça no galho e pulava no chão. Certos galhos eu não me atrevia a pisar, pois sabia que estavam podres ou frágeis.
Quando meu pai pediu para eu pegar uma goiaba que estava em um local onde teria que me arriscar em um galho podre, disse que não poderia fazer isso, pois o galho cederia e eu iria cair. Mas, como todas as vezes que eu retrucava ele teimava em mostrar que estava errado, mandou que eu descesse da goiabeira que ele iria pegar a tal fruta.
Não deu tempo nem de descer e ele, ao pisar no galho podre, despencou lá de cima e caiu de costas no chão. Deus foi bom para com ele, pois se tivesse caído um metro para trás teria ido de encontro ao muro.
Quando vi meu pai caído, roxo de dor, ajudei-o a se levantar e subir as três escadas até chegar na sala de casa. Ali ele deitou no sofá e só saiu direto para a Santa Casa, onde foi constatava a fratura na quinta vértebra da coluna cervical.
Foram seis meses engessado do pescoço até a cintura e, sinceramente, não sei como meu pai foi capaz de suportar aquilo. Eu, em seu lugar, não teria forças suficientes.
Nunca mais meu pai ousou subir na goiabeira. A lição serviu para o resto da vida e, para mim, aquele sábado de junho ficou marcado para o resto da minha vida.

A família é a base de tudo


Cresci em uma família que sempre lutou muito para dar o melhor para os filhos. Desde pequeno aprendi que nada caía do céu ou vinha de mão beijada, como se dizia antigamente.
Meu pai era empregado na fábrica de móveis Santa Terezinha, que naquela época era de propriedade do Aníbal Cremasco, o Bacuri, e ficava lá no final da Rua Comendador João Cintra, onde passa o córrego Lavapés, ou o riozinho, como é conhecido. Lembro que cada vez que chovia forte e isso ocorria invariavelmente de madrugada, lá ia meu pai rua abaixo ajudar a levantar os móveis para que a água do riozinho não estragasse tudo.
Minha mãe, embora não trabalhasse fora, era quem cuidava para que tudo desse certo, a comida rendesse, o dinheiro fosse suficiente e as coisas andassem da melhor maneira possível. Enfim, era quem usava a cabeça.
Até meus nove anos nossa casa era a casa da minha avó Carmela, mãe da minha mãe. Nesse período algumas mudanças ocorreram e posso afirmar que para melhor. Meu pai, ao lado de outros seis empregados – Ulisses Ravetta, Francisco Tossini, Orlando Sartori, Atílio Avancini Neto (Tila), Joaquim Norberto Bayod (Beti) e Adilson Ravetta -, entrou no negócio que resultou na compra da fábrica.
Mesmo não tendo o dinheiro suficiente para bancar sua parte, pôde efetuar o negócio graças à ajuda da sogra, que tinha suas economias e emprestou o valor necessário. Uma nova fase se iniciava e depois de um tempo meu pai devolveu o valor que minha avó havia emprestado.
Depois desse período minha avó não durou muito e acometida de um câncer acabou indo para o andar de cima. Aí surgia outro problema, pois morávamos na casa que lhe pertencia e que os seis irmãos da minha mãe também tinham parte.
Convencido pela minha mãe que deveria comprar as partes, lá foi meu pai em busca da concretização do sonho da esposa. Afinal, tinha ouvido dela que só sairia daquela casa, onde nascera, direto para o cemitério.
Diante de um ultimato desses, só lhe restou correr atrás. Mas minha mãe também deu sua contribuição, pois tinha uma casinha na rua acima do supermercado Bilato comprada com as economias que amealhou durante o período em que trabalhou na Fábrica de Chapéu Sarkis e o dinheiro arrecadado com a venda ajudou meu pai a comprar as partes.
Tudo isso me fez aprender que, se nada na vida vem fácil, tudo pode ser conquistado desde que haja fé em Deus e vontade de realizar. E isso continua me guiando até hoje.
Sei que nada é fácil, que tem dia que dá vontade de desistir de tudo e, como se diz na gíria do futebol, pedir pra ir no banheiro e ir embora de vez. Mas ai vem tudo isso que aprendi e vejo que devo continuar lutando, lembrar que tenho uma filha que depende de minha vontade de lutar e vencer e tudo fica mais fácil e claro.
Agradeço todos os dias a Deus por ter me dado a oportunidade de aprender com meus pais que nada na vida é fácil. E agradeço por Ele me dar saúde para enfrentar as bravatas que a vida nos impõe e sigo em frente com a certeza que lá de cima, onde estão, meus pais sempre irão guiar meus passos.

A Copa vista da copa

Minha mãe adorava assistir futebol pela TV,
principalmente jogos de Copa do Mundo
Minha mãe sempre gostou de futebol e quando era jogo de Copa do Mundo então lá estava ela na poltrona da sala pronta para assistir. Bacia de pipoca na mão e os olhos grudados na TV.
Sãopaulina de coração, quando era o meu Palmeiras que estava em campo ela sempre torcia por uma vitória alviverde. Mas, o que gostava mesmo era ver jogo de futebol, não importando quem fosse enfrentar quem.
Quando chegava a época da Copa, já fazia seus planos para ver as partidas. Se fosse jogo da seleção brasileira e a coisa estivesse ruim, apelava para a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que saía do quarto e vinha pra mesinha da sala para dar uma força para o time canarinho.
Mas, nem sempre seu desejo de ver um bom jogo era realizado. Vez por outra e, sempre que tinha uma partida de Copa do Mundo, aparecia uma visita para atrapalhar seu passatempo favorito.
E quase sempre a visita era a tia Rosa Galli, sua tia por parte de mãe, que recém-chegada de São Paulo, não tinha com quem jogar conversa fora e era em casa que aportava. Não que minha mãe não gostasse, mas como ela sempre dizia: tinha que ser na hora do jogo?
Como não era de fazer desfeita, minha mãe acabava fazendo sala, ou melhor, fazendo copa. Como não gostava de futebol e pouco se importava para o gosto da minha mãe, a tia sentava na copa, longe da TV.
Da copa, que ficava ao lado da sala, minha mãe conseguia botar os olhos no aparelho de TV, mas não era a mesma coisa. Cada vez que saía um lance mais perigoso e ela tentava prestar atenção, a tia dela disparava a matraca e sua tentativa de ver o lance ia por água abaixo.
A tia Rosa foi embora desse mundo bem antes da minha mãe. Sem filhos para deixar a herança, escolheu um sobrinho que cuidou, e bem, de seus negócios, para deixar o que amealhou durante a vida, incluindo casa e poupança.
Minha mãe sempre afirmou que o mesmo merecia, pois cuidou de sua tia tão bem que talvez nem mesmo um filho fizesse melhor. Mas, com sua pontinha de ironia, também afirmava que não custava nada ter deixado uns trocados pra ela, pelo menos pra pagar os jogos de Copa vistos lá da copa da casa.


A casa 41


Bem em frente ao caminhão, do outro lado da rua, ficava a casa de meus avós
Certas passagens marcam nossa existência e permanecem como lembranças intactas, guardadas em um baú de memórias instalado em um canto qualquer do coração. São pessoas, lugares, momentos que são eternizados e, vez ou outra, reaparecem de forma fugaz na nossa mente.
Minha infância foi permeada por momentos e pessoas como a de qualquer outro ser humano. E tantas passagens foram vividas em uma certa casa de número 41 que ficava na Rua João Pereira, a rua abaixo do Bairral e bem perto do Parque Juca Mulato e do antigo estádio Chico Vieira.
Foi ali, na casa dos meus avós paternos, que vivi muitos desses momentos. Era lá que eu passava quase todos os finais de semana, as festas de Natal, Ano Novo, Páscoa, além da festa junina que sempre acontecia no dia de São João, que também marcava o aniversário do meu avô João Butti.
Aos domingos era comum meu pai atravessar o parque, subindo pela Ladeira São João, passar a Avenida dos Biris até alcançar a passagem que existia para a João Pereira, na altura de onde hoje está o PPA Central na Rua Bentico Pereira. Do seu lado a Vera, minha irmã mais velha, e eu.
Nos dias de festa, como Natal, Páscoa e Ano Novo, minha mãe já subia durante a semana para ajudar no preparo das comidas e dos doces. E quando chegava o momento de sentar à mesa a casa estava cheia.
A mesa do rancho era grande, abrigava pelo menos 20 pessoas e nem sempre cabia todo mundo. Muitas vezes outra mesa era colocada para as crianças para que todos se acomodassem.
Foi um tempo feliz, que produziu muitas lembranças, a maioria delas alegre. Um tempo que faz falta nos dias de hoje.
Daquela casa lembro cada detalhe. Do portão de entrada, das flores do jardim antes da pequena área, da sala onde ficava o sofá e a TV e onde minha avó Leonor armava a enorme árvore de Natal, dos dois quartos do lado direito e o do lado esquerdo onde dormia meu tio Ivan, depois tinha a cozinha e lá fora, do lado direito o banheiro e do outro o rancho com o fogão à lenha no fundo.
Mas também tinha o quintal onde ficava a parreira de uva e mais acima os pés de limão galego e figo. Lá no final um galinheiro desativado que servia para meu avô guardar as tralhas dele.
A casa não existe mais, foi demolida e no lugar construída uma nova. Mas, se não existe fisicamente, continua em pé nas minhas lembranças de criança e é lá que ficará até que um dia eu também vá para o andar de cima depois de cumprir minha etapa nessa vida.

A banda do Toninho


Em 1974, prestes a completar 17 anos, minha vida profissional mudou radicalmente. Ao ser aprovado no concurso para trabalhar no escritório da Usina Nossa Senhora Aparecida, passaria a fazer parte do quadro de funcionários de uma das maiores empresas da cidade naquela época.
De aprendiz no escritório de contabilidade Furiatti, meu primeiro emprego, passei a trabalhar no setor de contabilidade da empresa, mesmo não tendo ainda completado 18 anos. Apesar de ser menor de idade, pelo meu aproveitamento no concurso acabei sendo contratado.
Lembro bem como era o ambiente, cada mesa e cada funcionário. O setor contábil funcionava na parte de cima do prédio, no nível da rua, na parte de baixo ficava o setor de recursos humanos e o balcão onde era efetuado o pagamento aos cortadores de cana em época de safra.
Contíguo ao escritório ficava o local destinado à diretoria. Na primeira mesa, de costas para a porta que dava acesso à sala dos diretores, sentava o doutor Murillo Arruda. Atrás dele a enorme máquina de xerox.
Na mesa seguinte, ocupando uma posição estratégica, de costas para as janelas e de frente para todos os subordinados, sentava o contado Osvaldo Pellegrini. Era um senhor do tipo bonachão, sisudo às vezes, mas que tinha bom coração.
Lembro que quando voltava do almoço no caminho da praça até a usina já ia cochilando no ônibus. E o cochilo continuava nas primeiras horas da tarde, fato que provocava risos em todos.
Nas outras mesas, dispostas em duas fileiras, sentávamos nós, simples mortais. Na primeira fila, perto da janela, ficava o Wilson Foraciepe, depois tinha a minha mesa e na mesa de trás o Adolfo Tagliatti.
A outra fileira, com quatro mesas, abrigava o Irineu Puggina, responsável pelos pagamentos, o Idair Giovelli, o Joãozinho Pereira e na última, de costas para a porta de acesso ao andar de baixo, o Toninho Franco, também conhecido como Toninho Carregador. Cada um com sua função específica para o bom andamento do trabalho.
Nosso período de trabalho incluía o sábado pela manhã. E foi numa manhã de sábado que tudo aconteceu.
Era época de safra e o campo da usina, pela proximidade com o escritório, ficava abarrotado de cortadores de cana aguardando o momento de receber a paga pelo trabalho semanal. Costumávamos falar que mais parecia dia de clássico no Morumbi, tal a quantidade de pessoas.
Talvez para matar o tempo e não dar a tradicional cochilada, o ‘seo’ Osvaldo desceu a escada e foi dar uma espiada no movimento. Imediatamente, como era de costume, o Toninho iniciou sua sessão de humor.
Sentado de costas para a tal porta, ergueu o braço direito, ainda segurando a caneta com que fazia as anotações referentes aos caminhões que transportavam a cana da roça para a moenda, e iniciou a imitação de uma banda.
Ele era tão engraçado que todos nós paramos o que estávamos fazendo e ficamos olhando para trás para ver sua performance. Animado com a plateia, Toninho continuou com a imitação e não percebeu que atrás dele, parado na porta, estava justamente o ‘seo’ Osvaldo.
Todos nós passamos a rir da situação e ele, achando que ríamos dele, continuou com a brincadeira até que o homem tossiu propositadamente atrás dele. Atônito e sem saber o que fazer, Toninho baixou a mão e mesmo imitando a tuba da banda, continuou escrevendo.
A cena foi hilária e até mesmo o contador riu da situação. Essa cena permanece na minha memória até hoje e cada vez que vejo o Toninho lembro de tudo, como se fosse hoje.

A arte de fotografar, o dever de preservar

Nagayuki Suzuki foi um dos grande fotógrafos que Itapira já teve
O ângulo nem sempre era favorável, mas eles sempre deram um jeito de buscar a melhor imagem para retratar um simples momento, uma pessoa ou um gesto. Muitas vezes nem imaginavam que aquele simples apertar de botão na máquina fotográfica fosse eternizar aquele instante.
Ser fotógrafo, como muitas outras profissões, faz do profissional um verdadeiro artista. Mesmo sem o uso de pincéis, tintas e cavaletes, sua obra é sempre digna de ser vista inúmeras vezes e, a cada olhar, um novo detalhe é destacado.
Conheci vários desses profissionais ao longo dessa caminhada por aqui. Com alguns cheguei a trabalhar e acompanhar o quanto é importante o resultado final de sua capacidade em perceber o melhor momento para disparar sua câmera.
Artistas como Paulino Santiago, Orlando Cestaro, Armando Mantuan, Nagayuki Suzuki e, mais tarde, Benedito Castro, André Santiago, Léo Santos e Zalberto Silva, entre outros, contribuem para enriquecer o acervo histórico da cidade e seus personagens.
A eles juntam-se os aficionados pela fotografia e que também colaboram para eternizar momentos e pessoas. Entre eles estão o inesquecível Nouman Sabbag, que deixou um legado rico em se tratando da história que o acolheu e adotou como filho, e o Luiz Antonio da Fonseca, o Toy, que por onde anda carrega sua inseparável câmera.
Para quem não viveu os tempos de outrora, as fotos oferecem uma oportunidade única de conhecerem lugares que já não têm a mesma magia, como a Avenida dos Biris, por exemplo, ou entender um pouco mais da história da cidade, construída lá atrás por pessoas de bem e que já subiram para o andar superior.
Pena que muitas fotos se perderam ao longo do tempo. Algumas pela ação do próprio tempo, outras pela incapacidade de pessoas em preservar ou dar valor a uma simples foto, que tempos depois viraria uma relíquia e até mesmo um documento histórico.
Fotografar, registrar, preservar a história de um povo. Se todos nós tivéssemos consciência da importância disso tudo, talvez nosso futuro fosse mais promissor, pois é no passado que buscamos as orientações para que no presente possamos firmar as bases que o futuro requer.


Unha encravada

Alexandre Redondano e sua esposa Stella Maris A vida nos prega peças, mas também nos oferece amigos para a vida toda. Amigos que mesmo q...