A véspera de Natal

Até hoje mantenho a tradição natalina que aprendi na infância
Se existe um dia favorito na vida da gente, o meu com certeza sempre foi a véspera do Natal. Principalmente na infância, era o dia que eu mais esperava, talvez por anteceder a chegada do Papai Noel ou por causa de todo aquele clima de preparativos para o dia seguinte.
Na minha casa a véspera do Natal sempre foi muito especial. Na verdade, a véspera começava bem antes, uma semana talvez, quando minha mãe subia os degraus do escadão da Ladeira São João, atravessava o Parque Juca Mulato até ganhar a Rua João Pereira, onde ficava a casa da minha avó Leonor.
Era lá que tudo acontecia durante a semana. Os doces eram feitos artesanalmente e com capricho. Era doce de figo feito com os figos do pé que havia no quintal da casa de meus avós, de laranja, duas cores, pudins e outras iguarias de dar água na boca.
Na véspera propriamente dita, o cheiro inconfundível de assados tomava conta do ar e completava o clima natalino. Aí, era só esperar pela chegada do Papai Noel, acordar, abrir o presente e depois fazer o caminho até a João Pereira para ganhar mais presentes e depois degustar as delícias naquela mesa enorme, cheia de gente e de alegria.
Tempos depois, quando eu já era jovem, principalmente depois que meus tios José Rubens e Ivan e meus avós João e Leonor foram para o andar de cima, nosso Natal passou a ser em casa. Minha mãe preparava o jantar da véspera com os assados, o tutu de feijão, o arroz branquinho, a maionese e, claro, os doces, tudo isso completado com as frutas natalinas que meu pai nunca deixou faltar, como nozes, avelãs, castanhas-do-pará e portuguesa.
Tudo isso faz parte do passado. Hoje meus pais também já estão comemorando o Natal no andar de cima, juntamente com aqueles que partiram antes.
Eu ainda permaneço por aqui e procuro oferecer para quem está comigo um pouco de tudo isso, dessa alegria da véspera de Natal, dessa magia que me comove mesmo depois de tanto tempo. Por isso que costumo dizer para quem queira ouvir que Papai Noel existe e está sempre presente em nosso coração.

A várzea dos Riboldi


Meu avô João Butti trabalhou por
muito tempo na olaria dos Riboldi
Sempre afirmo que embora não tenha nascido ou residido nos Prados, minha ligação com o bairro é muito estreita. Desde os jogos de futebol até a época em que descia a ladeira São João com meu pai para caçar rã, tudo era direcionado para aquele lado da cidade.
A começar pelo meu avô, que por anos a fio trabalhou na Olaria dos Riboldi, que ficava na Avenida Brasil. Era lá que eu ia buscar barro para brincar ou para, mais tarde, fazer os trabalhos manuais.
E, falando nos Riboldi, que têm parentesco com minha família, era na várzea que tinha atrás da olaria que eu e meu pai íamos caçar as saborosas rãs folhagem e, às vezes, as mais encorpadas, chamadas de rãs pimenta pelo cheiro forte que exalavam. Naquele tempo anda não existia a Avenida dos Italianos e apenas uma cerca separava a várzea dos fundos da olaria.
Quando chegava a época de caçar rã, após a temporada de chuva principalmente em setembro e outubro, a várzea ficava repleta de pequenas lagoas formadas pela chuva pelo transbordo do ribeirão da Penha. Meu pai, profundo conhecedor daquele lugar, principalmente por ter morado nos Prados quando criança, sabia onde encontrar as bichinhas que mais tarde virariam um prato e tanto.
Lembro das inúmeras vezes que desci a ladeira, com um saco vazio em punho, caminhando ao lado do meu pai e esperando a hora em que ele iria acender o pavio da lanterna de carbureto. Era só começar a cair a noite e ele já providenciava a luz que nos levaria até os locais onde teríamos êxito na caçada.
Algumas vezes meu avô João nos acompanhava na caçada. Quando chegávamos à várzea ele ia por um lado e meu pai e eu por outro, assim era possível visitar todas as lagoas e encontrar mais rãs.
Quando meu tio José Detlinger, marido da tia Shirley, vinha para Itapira, também participava da caçada e na hora de limpar as rãs, gozador que era, deixava minha vó Leonor em polvorosa. Ela tinha pavor de rã e se trancava no quarto para se esconder, mas meu tio um dia quase matou a ‘véia’ do coração ao colocar uma rã por debaixo da porta.
Quando saiu do quarto, depois que meu pai recolheu a bichinha, de vassoura em punho correu atrás do genro para dar o troco. Era um tempo muito bom e feliz para todos nós.
Lembrar de tudo isso só traz alegria ao coração, pois me remete a um tempo em que minha família era numerosa, um tempo em que a mesa do rancho da casa de meus avós estava sempre cheia. Um tempo que se foi, mas que deixou boas recordações.

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