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| Meu tio padre José Rubens Butti foi embora muito cedo |
Minha avó Leonor era a responsável pelos pastéis nas
quermesses e meu avô João Butti fazia parte do grupo que prestava serviços à
paróquia comandada pelo padre Matheus Ruiz Domingues. Essa devoção não era em
vão, além de serem religiosos, tinham um filho no seminário, se preparando para
assumir seu lugar como padre.
Desde pequeno acompanhei todo esse processo. Meu tio José
Rubens estava no seminário e vinha a cada folga para casa. Estudou em São
Paulo, Campinas e algum tempo passou também em Aparecida, mas sempre que podia
vinha para Itapira.
Era um tempo feliz, a família se reunia a cada data
especial como Natal, Ano Novo e Páscoa. A mesa comprida no rancho da casa de
meus avós sempre ficava cheia e muitas vezes seus colegas seminaristas também
marcavam presença, entre eles Jacintho Domeni Martins e José Veríssimo
Sibinelli.
Quando estava em Itapira meu tio cumpria seus deveres na
igreja, mas também tinha sua vida normal como jovem que era. E, como bom
corintiano, logo pela manhã descia a rua Hortêncio Pereira da Silva até o Bar
Santo Antônio, de propriedade do Carlos Zacchi, para ler as notícias na Gazeta
Esportiva.
Certa vez, em uma dessas manhãs, segundo relado do
Guilherme Martelli, meu tio estava em uma das mesas lendo o jornal quando
apareceu um senhor, de uma outra religião, como uma bíblia na mão. Ao se
dirigir ao balcão, abriu a bíblia e começou a ‘pregar’.
O Ico Martelli, pai do Gui, que trabalhava no bar e
estava no balcão, interrompeu o discurso e mostrou meu tio, sentado e absorto
na leitura. “Fale com aquele moço ali”, disse. E, imediatamente, o homem com a
bíblia se dirigiu à mesa onde meu tio estava e começou a falação.
Calmamente, meu tio pediu a ele que abrisse a bíblia em
uma determinada página e, ao ser atendido, começou a falar para o homem tudo
que ali estava escrito. Sem ação, restou ao homem enfiar a viola no saco ou a
bíblia embaixo do braço e dar no pé.
Meu tio José Rubens tornou-se diácono no dia 14 de junho
de 1970. Guardo essa data porque foi no dia em que a seleção brasileira derrotou
o Peru por 4 a 2 na Copa de 70 e garantiu vaga nas semifinais para enfrentar o
Uruguai.
Depois disso ainda passou um período no seminário até
tornar-se padre em maio de 72. Indicado para assumir a paróquia de Santa
Cândida, em Araras, foi para lá e lá faleceu em novembro do mesmo ano, aos 29
anos.
Padre José Rubens Butti, ou simplesmente meu tio Zé
Rubens, foi um padre muito além do seu tempo. Com idéias inovadoras, sempre
buscou dar às missas e atividades religiosas um conceito mais leve e moderno.
Com seu jeito amigo, conquistou a confiança de todos os
que frequentavam suas celebrações, mesmo os mais radicais. Fez amigos por onde
passou e mesmo tanto tempo depois de subir para o andar superior ainda é
lembrado por seu carisma.
