Com asas nos pés

Sílvio defendeu o Palmeiras na década de 70
Vi esse menino correndo atrás da bola, aterrorizando as defesas contrárias nos campinhos da vida. Fosse no campo dos Prados, onde o trem passava atrás de um dos gols, ou na Santa Cruz, bem pertinho do cemitério.
Não importava quem estivesse pela frente, grande ou não, ele passava como um bólido, sempre com a bola grudada no pé direito, driblando laterais, zagueiros, buracos e touceiras.
Naquele tempo não havia as facilidades de hoje, os gramados de hoje ou os recursos oferecidos aos garotos, como chuteiras macias, caneleiras, bolas impermeáveis e tudo mais. Era na raça mesmo, descalço, com bola que quando abria a costura mostrava a câmara de ar que havia dentro dela.
Sílvio, ou Dé, como era conhecido por todos nós, parecia ter asas nos pés. Quando partia em direção ao gol adversário era difícil ser parado.
Vi aquele jovem, antes um garoto, progredir e ganhar espaço no time da cidade. Com a camisa grená do Itapira, despontava como grande promessa de seguir carreira e para tanto bastava uma chance de provar seu talento.
A chance veio, e justamente no Palmeiras, seu e meu time do coração. E lá se foi o garoto de 18 anos tentar a sorte em um time grande, recheado de craques.
Não demorou muito e lá estava ele, envergando a camisa 7 do Alviverde do Parque Antarctica. Suas jogadas pela direita, suas infiltrações defesa adentro levavam pânico ao adversário e eram uma arma mortal utilizada para alcançar a vitória.
Acompanhei sua trajetória, pelo rádio, pela TV ou mesmo in loco, no estádio. Vi ele desmontar a defesa do Botafogo do Rio em um jogo no Pacaembu, até ser sacado do time pelo técnico Jorge Vieira, que ouviu o tradicional coro de ‘burro’ entoado pela torcida.
Vi aquele veloz camisa 7 contribuir com seus passes para o Palmeiras eliminar o Internacional no Morumbi e chegar à final do Brasileiro de 78. Se não foi campeão, pelo menos provou seu talento com a bola nos pés.
Com dor no coração ouvi pelo rádio o lance em que um lateral de nome Manoel, do Botafogo de Ribeirão Preto, usou a violência para parar aquele ponta veloz e praticamente selar sua passagem pelo Palmeiras. Assim quis o destino, senhor de todas as ações.
Sílvio seguiu sua carreira, defendeu outros clubes, mostrou que sabia o que fazer com a bola, mas a vitrine já não era a mesma. Encerrou sua carreira em outro alviverde, o União São João, de Araras, cidade que escolheu para seguir a vida, constituir família e ensinar o que sabia aos garotos da base.
Só quem viveu aquela época sabe do que estou falando. Só quem viu aquele garoto com asas nos pés sabe que talento não se compra no mercado da esquina, mas já vem no sangue que corre nas veias.

Centroavante de verdade


Em 1969 a Esportiva foi campeão da Terceira
Divisão e Foraciepe o artilheiro com 17 gols
Ele não tinha porte e muito menos altura para ser um centroavante. Não chutava forte, mas quando a bola caía nos seus pés, as chances de gol eram notórias.
Wilson Foraciepe foi o que se pode chamar de terror das defensivas contrárias. Em 1969, aos 25 anos, foi o artilheiro do Campeonato Paulista da Terceira Divisão atuando com a camisa nove da Sociedade Esportiva Itapirense e ainda ajudou a Vermelhinha a chegar ao título após uma campanha memorável, marcando 17 gols.
Naquele tempo o jogador clássico tinha seu valor. Quem sabia tratar a bola com habilidade era tido como craque.
Eu vivi esse tempo e tive o prazer de ver Foraciepe jogar. As tarde de domingo no Chico Vieira eram imperdíveis e eu, aos 13 anos, era fã daquele camisa nove que tinha sede de gol. Eram raros os jogos em que ele passava em branco e naquele campeonato deixou sua marca em quase todos os confrontos, aniquilando as defensivas contrárias.
O time da Esportiva era respeitado. A diretoria havia mesclado jogadores da cidade com outros de cidades vizinhas como o goleiro Écio, o zagueiro Ivan, o volante Fausto e o meia Didi, que atuava aberto pela ponta. .
O time titular era conhecido por 10 entre 10 torcedores. A formação era Écio; Tu, Zé Frangueiro, Ivan e Edi Picolli; Fausto, Zé do Ítalo e Didi; Ronoel, Foraciepe e Bugiu, mas o técnico Zé Coradi tinha no banco jogadores como o goleiro Bonga, o lateral Reginaldo, Kally, Joel de Melo, Lobeto e Mineiro, entre outros, que quando eram chamados davam conta do recado.
Mais tarde, cerca de quatro anos depois, tive o prazer de conhecer aquele centroavante de perto. Foi quando passei no concurso e fui trabalhar no escritório da Usina Nossa Senhora Aparecida.
Minha mesa era justamente atrás da que ele ocupava e muitas histórias eu pude ouvir daquele que eu idolatrava ao ver jogar. Certa vez ele me disse que por ser tímido havia deixado de ir para um time grande.
E, se vê-lo atuar, sentado na arquibancada do Chico Vieira já era maravilhoso, o que dizer de atuar ao seu lado no time usinense? E eu tive essa honra, pois pude jogar ao seu lado e ver sua habilidade e sua rapidez de pensamento na hora de definir o lance.
Wilson Foraciepe marcou seu nome no futebol itapirense e fez história dentro de campo. Certa vez, em um jogo da Terceira Divisão de 69, o campo lotado e os torcedores ansiosos para ver o time vencer e vê-lo estufar as redes adversárias, mas naquele dia, ciente de sua capacidade, só marcou depois que driblou praticamente o time adversário inteiro. Depois disso ainda fez outros gols em mais uma grande vitória do time itapirense.


Carrinho de rolimã


Carrinho de rolimã, diversão preferida da minha irmã
Todos nós, pelo menos uma vez na vida, já andamos em um carrinho de rolimã. Feito em madeira, com rodinhas que giram através das bolinhas colocadas em uma espécie de engrenagem, o carrinho normalmente é dirigido com os pés.
O quarteirão que eu morava desde que nasci era propício para esse tipo de brinquedo. Com a calçada dotada de leve declive, era só embalar o carrinho lá na esquina onde ficava a Farmácia Nossa Senhora da Penha e torcer para que ninguém entrasse na frente.
A rua de casa, mais precisamente o quarteirão entre a Rua XV de Novembro e a Ladeira São João, era repleto de crianças. E a cada época do ano a brincadeira era diferente.
Tinha a febre do pião, das pipas, das brincadeiras de rua e tinha também a épocas do carrinho de rolimã. Aí a coisa fervia e era carrinho pra cima e pra baixo o dia inteiro.
Por causa das rodas em aço, além do barulho que produzia, o brinquedo muitas vezes riscava a calçada, principalmente na hora de colocar o pé no chão e brecar. E era aí que a confusão se formava.
Meu pai, sempre austero, não era muito chegado a esse tipo de brincadeira e quando ficava irritado saía na porta de casa e reclamava com os meninos que estavam descendo a calçada com os carrinhos. Isso fazia com que muitos deles tivessem medo dele e outros, mais rebeldes, davam de ombros e a brincadeira continuava.
Mas, o que meu pai não sabia era que o chefe da turma, ou melhor, a chefe da turma era sua filha mais nova. Minha irmã Claudia, que sempre gostou de fortes emoções, era a líder do grupo dos carrinhos de rolimã.
Claro que se soubesse da proeza dela meu pai iria virar o bicho, então tudo era feito as escondidas. Lembro de uma vez que, ao descer de patinete a calçada de casa, ela perdeu o controle do brinquedo e deu na parede, esfolando o tornozelo.
Com medo da reação do meu pai, que estava para chegar do trabalho para o almoço, entrou em casa escondida, sem que minha mãe visse, e quem curou o pé da corredora fui eu. Aliás, era sempre assim: ela aprontava das suas e eu acobertava e livrava ela do pior.
Talvez seja por isso que nos damos tão bem e somos não apenas irmãos, mas parceiros de todas as horas. Recordar esse tempo nos remete a um costume praticamente em desuso nos dias de hoje, tão atrelado à tecnologia e às telas de celulares, iPhones, tablets e outros brinquedinhos do gênero.


Unha encravada

Alexandre Redondano e sua esposa Stella Maris A vida nos prega peças, mas também nos oferece amigos para a vida toda. Amigos que mesmo q...