Escuridão que assusta

Glauco Lauri e Kako Chagas, dois exemplos de superação

Desde a infância sempre tive como maior medo possibilidade de um dia ficar sem enxergar. Só de pensar nisso já fico incomodado.
Talvez seja pelo fato de ter problemas com lugares fechados, onde me sinta sem chance de sair. Ainda hoje, quando tenho um sonho desse tipo acordo assustado.
Acredito que, se um dia ficar sem poder enxergar, não sei se seria capaz de enfrentar e me adaptar à nova situação. Talvez não fosse capaz de superar essa escuridão que assusta.
Só de pensar em viver em um mundo onde não haja luz ou a vida como sempre conheci já me dá um certo frio na espinha. E vem a certeza que não seria forte o suficiente para seguir em frente.
E todas essas certezas e incertezas só reforça o que sinto em relação a dois amigos, que viram a vida e hoje enfrentam outra realidade por estarem cegos. Admiro a força deles para seguirem em frente.
No início dos anos 2000 quando soube que o amigo Glauco Lauri tinha perdido a visão por causa do diabetes me coloquei em seu lugar e entendi o quanto o ser humano precisa de forças para superar adversidades. E, essa força, sinto que não tenho.
Acompanhei sua superação, seu novo modo de viver, sua demonstração de força e capacidade e posso afirmar que minha admiração pelo amigo apenas aumentou ainda mais. Se antes eu o admirava pela capacidade profissional, passei a admirar também sua força interior.
Mais tarde, um outro amigo passou a conviver com a escuridão que a perda da visão impõe. Carlos Eduardo Chagas, o Kako, acometido por uma doença rara, iniciou sua caminhada na escuridão que de repente envolveu sua vida.
E, novamente, pude vivenciar mais uma demonstração de força e superação. Kako também não vê a vida como antes, mas segue em frente e renova suas forças a cada momento.
Tanto um com outro merece todas as formas de respeito pela demonstração de força interior. São exemplos de vida que devemos sempre reverenciar, pois acredito que não há nada mais desafiador para o ser humano do que ter que conviver com a escuridão.
Se não possuem o direito de enxergar a vida como sempre puderam, usam o coração e a sensibilidade aguçada da percepção para sentirem as forças se renovarem a cada momento. E vão em frente do jeito que a vida reservou.


Ele sempre tem uma boa história para contar


Conversar com Arlindo Bellini é sempre prazeroso:
ele sempre tem uma boa história para contar
Ele sempre tem uma boa história para contar. Um ‘dedo’ de prosa com ele é o caminho para relembrar bons momentos, recordar fatos e trazer de volta nomes que muitas vezes estão esquecidos no passado. Com tantas histórias e recordações, hoje ele é referência para qualquer assunto que envolva a história da cidade e de sua gente.
Arlindo Bellini começou cedo na lida. Seu primeiro emprego foi em uma oficina de reforma de móveis, depois passou pelo cartório de registro, de propriedade de Azum Pereira de Macedo e Benedito Calil, até entrar para o mundo das letras como funcionário da Folha de Itapira, que editava o jornal do mesmo nome e também funcionava como tipografia.
Talvez tenha sido ali, em meio a tipos, fontes e ideias, que pegou o gosto pela escrita, atuando ao lado de pessoas que marcaram época no jornalismo local, como Amaury Martins, por exemplo. Mas, apesar de ter frequentado os bancos do Grupo Escolar Dr. Júlio Mesquita até o quarto ano primário, encontrou na leitura o suporte necessário para enriquecer seu vocabulário e aguçar o dom de relatar fatos que já estava inserido em seu seio.
Nomes famosos da literatura como Machado de Assis, Monteiro Lobato, Júlio Verne, Menotti del Picchia, Afonso Schimidt e Augusto dos Anjos foram seus companheiros nas horas dedicadas à leitura. E foi dessa predileção que veio a facilidade para colocar as palavras e a vocação para contar as histórias que todo mundo gosta de ler e ouvir.
Aos 18 anos, na segunda metade da década de 50, passou a ser funcionário da Casa Baiochi, de propriedade de Arthur Baiochi Neto, um dos grandes empreendedores que Itapira já teve. Ao mesmo tempo iniciava o namoro com Guiomar Aparecida Pizzi.
O ‘casamento’ com as Casas Baiochi já dura 60 anos. Do enlace com a esposa, com quem já tem 55 anos de união, vieram os filhos Fernando Adamo, Marcelo Augusto e Patrícia Elaine e os netos Ana Carolina, Pedro Henrique e Vitor Augusto.
Apesar das ocupações como comerciário, Arlindo Bellini nunca deixou de lado a ligação com a história. Sua memória aguçada proporciona a lembrança de fatos e a história da cidade aflora a partir de um simples acontecimento.
E é dessa forma que desde a fundação do jornal Tribuna de Itapira, em junho de 89, relata semanalmente acontecimentos, relembra pessoas e dá vida às lembranças do passado. Começou relatando e relembrando o futebol itapirense e hoje é o principal historiador de uma terra que já não conta com João Torrecillas Filho e Jácomo Mandato, que também deram importante contribuição para a preservação da memória de Itapira e sua gente.
Conversar com Arlindo Bellini é prazeroso e uma viagem às nossas origens, pois ele sempre tem uma boa história para contar. E quem não gosta de ouvir uma boa história?

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