Pessoas que são imortalizadas por seus atos


Flávio Zacchi no Cidade contra Cidade comandado por Sílvio Santos em 69
Algumas pessoas, quando sobem para o andar de cima, não morrem, são imortalizadas pelos atos de generosidade e ações que visam sempre o bem do próximo. Acredito que Deus as chama para que continuem lá em cima a obra que aqui deixaram de forma inacabada.
Flávio Zacchi é um desses, com certeza. Sua partida precoce, aos 53 anos, deixou uma lacuna, não só no seio familiar, mas na orda de benemerência que sempre integrou.
Conheci Flávio Zacchi por diversos motivos. Pela proximidade das famílias, principalmente. A família Zacchi sempre foi próxima da família de meus avós paternos, pela pouca distância entre as casas e, principalmente, pela devoção a Santo Antônio.
Nascido no final de maio de 1939, Flávio Zacchi foi um dos fundadores da Guarda Mirim, abrindo assim a oportunidade para que muitos jovens e adolescentes pudessem trilhar o mesmo caminho que ele. Afinal, foi dessa forma que iniciou sua carreira profissional no escritório de contabilidade do qual depois se tornou um dos proprietários.
Lembro como se fosse hoje da educação com que tratava a todos, fosse qual fosse o nível social ou econômico. Talvez isso fizesse parte daquilo que chamamos de berço e algo que carregou consigo desde os tempos em que trabalhava com o pai Carlim Zacchi no restaurante defronte a igreja do santo casamenteiro.
Figura comum nas missas da Matriz de Santo Antônio, estava sempre pronto a auxiliar na celebração. E, por ter uma boa dicção, comumente era chamado a ler durante a mesma.
Essa afinidade com as coisas de Deus e a facilidade para se fazer entender o levaram a comandar, anos a fio, a Oração da Ave Maria, um momento de pura reflexão nos microfones da Rádio Clube, caminho para adentrar nas casas dos ouvintes com uma mensagem de fé. Talvez essa fosse mais uma fatia de sua missão enquanto trilhou pelos caminhos do mundo.
Em 69 foi o apresentador itapirense no então famoso Cidade contra Cidade, comandado por Sílvio Santos na extinta TV Tupi. Lá, com maestria, representou sua cidade e sua gente.
Formou sua família ao lado da esposa Antonia Ruth de Souza e com ela teve as três filhas: Flávia, Fernanda e Fabiana.
Assim como meu tio padre José Rubens Butti, que partiu desse mundo ainda jovem, aos 29 anos, Flávio Zacchi também foi chamado para integrar o grupo que preserva os bons costumes e a fé de seu povo, mesmo estando em um plano superior.
E como sempre dizia no final da Ave Maria, Flávio deve estar nesse momento nos enviando através das ondas do rádio de Deus a mensagem que deixava aos ouvintes: ‘que o Senhor nos abençoe e nos dê a luz para o dia de amanhã’. Amém!


Os bares e suas peculiaridades

O famoso senadinho do Bar do Odilon em foto de 08 de julho de 76
Lembrar do passado nos faz viajar no tempo e aterrissar em locais que ficaram guardados em nossa memória. Lugares e pessoas que deixaram marcas e lembranças de um tempo que não volta mais.
E, dentre essas lembranças boas, me veio à memória dois bares que não existem mais, mas que com certeza estão bem vivos nas recordações de quem teve o privilégio de viver aquele tempo. Cada um tinha suas peculiaridades por proporcionarem aos frequentadores a sensação de estarem em casa.
Na parte superior da praça Bernardino de Campos, no quarteirão que tinha em uma extremidade o posto de gasolina, o primeiro estabelecimento era o tradicional Bar do Odilon, comandado pelo Odilon de Castro, um senhor com ar bonachão, sempre simpático, e seus filhos. Com suas quatro portas, era amplo e tinha um balcão de alvenaria que no lado esquerdo de quem entrava terminava em L, onde ficava a bomboniere com suas balas e chocolates de dar água na boca.
Naquela época as balas Chita, Olímpica (de ovo e coco), ou as recheadas com chocolate eram as minhas preferidas. Entre os chocolates, as marcas mais famosas eram Pan, Sonksen e Lacta.
Mas, era atrás das prateleiras da bomboniere, distante dos olhos dos fregueses comuns, que ficava o ponto de encontro dos clientes contumazes, aqueles senhores que batiam o cartão todos os finais de tarde para um bom papo regado a whisky e outras bebidas. Chamado de ‘senadinho’, o local era para poucos, apenas uma seleta freguesia.
Andando pela mesma calçada em meus devaneios, em direção ao outro lado do quarteirão, minhas lembranças passam pelo Cine Bar e sua entrada para o Cine Rádio; a casa dos Pereira de Moraes, proprietários do Cine Bar; o Centro Comércio e Indústria; o Cine Paratodos, até chegar ao Bar e Restaurante Central. Como era bom aquele tempo, com tantas opções de lazer no entorno da praça, hoje tão esquecida e mal frequentada.
No Bar Central outra peculiaridade chamava minha atenção. Ali o hábito dos fregueses tradicionais era ficar do lado de dentro do balcão, que tinha formato de L na extremidade direita de quem entrava. Ali, perto do caixa, se concentravam os senhores que de uma forma ou de outra acabavam auxiliando o China Paschoalin e o Lamartine, proprietários do estabelecimento.
Lembro que do outro lado, ao fundo, ficava a engraxataria, a porta de acesso ao salão do restaurante e a sorveteria, com seu balcão extenso e os sabores inigualáveis. No canto, depois da pequena porta de acesso para quem vinha da Conselheiro Dantas, ficava a bilheteria da empresa Viação Bragança.
Essas lembranças, para um garoto como eu, que viveu aquele tempo mágico, jamais serão esquecidas. E, com certeza, os personagens dessa viagem que ainda estão nesse mundo, irão lembrar dessas e de outras peculiaridades desses dois locais.

O caminho para o trem

O quarteirão da José Bonifácio com destaque para a antiga Casa Bernardino

A principal rua da cidade tem um apelido peculiar, desconhecido por muita gente que nasceu nas últimas três décadas. A José Bonifácio, que abriga o seio do comércio, foi apelidada de Rua da Estação por ser o caminho praticamente obrigatório para quem se dirigia à estação ferroviária, de onde partiam os trens da antiga Cia. Mogiana, mas tarde rebatizada de Fepasa.
Naquela época era comum as pessoas utilizarem o transporte ferroviário para irem até São Paulo. E a José Bonifácio, por sua localização, era o trajeto de quem tinha como destino a estação situada nas proximidades da Fábrica de Chapéus Sarkis.
Para quem vinha de bairros como Cubatão ou Prados e mesmo do centro, a principal via da cidade era o caminho mais fácil. Bastava descer até a esquina da Alfredo Pujol, dobrar a direita, passar em frente os hotéis Central e São Paulo, instalados ali de forma estratégica para abrigar os viajantes que pernoitavam na cidade, e a estação estava logo ali.
Mas, naquele tempo, pelo menos no meu tempo de criança, quando o trem ainda era utilizado para o transporte de pessoas e cargas, a José Bonifácio era bem diferente dos dias atuais. Ali estavam as lojas mais tradicionais do comércio, as farmácias e agências bancárias.
Lembro que na esquina da Comendador João Cintra, em frente a loja A Paulista, ficava a farmácia onde trabalhava o Lázaro Nunes de Mattos, o Lazinho, que mais tarde ficou conhecido como Lazinho da Pamonha. Do outro lado, depois da Paulista tinha a Paulista Presentes, o Buraco da Onça, a Leader da Praça, o Brasília Bar e na esquina a Pernambucanas. Do outro lado, antes da agência do Banco Itaú, tinha a Loja Sase, que também trabalhava com confecção de roupas masculinas e empregava alguns dos mais renomados alfaiates da cidade.
Atravessando a Campos Salles no meu tempo tinha a MacGregor, do Gilton Zago; depois vinha a Vip Modas, do Aluizio Nicolau; a Sapataria Sport, do Hélio Nicolai, a Casa Baiochi e a Casa Botelho; em seguida a Casa Zico e na esquina o Banco Mercantil. Na outra calçada tinha a Casa Barretto, a Farmácia Vera Cruz, a Relojoaria Lalo, a Casa Munir e a Casa Bernardino, de propriedade do Daniel Parnes.
Passando pela João de Moraes, na esquina a Casa Vermelha, a casa da família Bisinelli, a Camisaria Fernandes, a Casa Dudu, a Casa Teté e a residência do Nagayuki Suzuki. Do lado de baixo a Radiluz, a Gráfica Santo Antonio, a Relojoaria Andrade, o Bazar do ‘seo’ Toninho, mas tarde vendido ao Tonussi; a Farmácia da Fé, a Casa Sartori, a Ótica Rubi e a Casa Recchia.
No último quarteirão antes de virar rumo a estação, ficavam a Vencedora, o Sebastião Bar, a barbearia do Tico Queluz e o Bar da Alegria, entre outros. Já na calçada do outro lado, abaixo do Bazar 25 existia a quitanda da Maria Teixeira, a oficina e a residência do José Galli, a residência do Francisco Galli, ambos irmãos da minha avó Carmela; a agência da Caixa Federal e a Casa Combate.
Com certeza, os mais antigos irão se lembrar de outros estabelecimentos e moradores da rua principal da cidade. Cada um tem sua lembrança e guarda na memória personagens que marcaram aquele tempo.
Esse tempo já vai longe, o trem já não passa mais pela cidade. As linhas foram desativadas, mas o apelido permaneceu, principalmente para quem viveu aquele tempo.


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