Praça agonizante

A fonte luminosa da praça Bernardino de Campos,
inaugurada em 1965 e destruída em 2004
Quem conheceu a praça Bernardino de Campos quando ela realmente era o cartão postal da cidade pode se considerar um privilegiado. Era um tempo em que a principal praça da cidade, com seus atrativos e cheia de vida em seu entorno, dividia com o Parque Juca Mulato a honra de representar a beleza da cidade um dia chamada de A Linda.
Conheci a antiga praça antes da revitalização promovida no final dos anos 60 pela mãos do engenheiro Renato Righetto. Tanto a antiga como a nova sempre foram belas e atraíam pessoas de todas as idades.
Em seu entorno existiam bares, restaurantes, cinemas, clubes, enfim, havia vida e movimento. Com a construção da nova Matriz, iniciada no final dos anos 50 e concluída em 1967, a praça também ganhou novos ares com a construção da fonte luminosa em sua parte baixa, fator que se constituiu em mais um atrativo para a população.
Mas, aos poucos, a beleza foi se transformando em tristeza. Os estabelecimentos que antes faziam a praça ter vida foram sendo trocados por bancos, farmácias e lojas que encerram suas atividades com o cair da tarde, deixando a praça entregue à solidão e ocupada por flanelinhas, pedintes e usuários de drogas.
A fonte, o coreto, a vida da praça principal da cidade não existem mais. Os grandes eventos que faziam daquele logradouro o ponto de encontro das pessoas, como os desfiles cívicos e o Carnaval, já não fazem da praça seu ponto culminante e nem mesmo as árvores, que antes embelezavam a praça Bernardino de Campos foram substituídas por novos exemplares.
Sobrou apenas a estátua do Comendador Virgolino de Oliveira, isolado em meio ao vazio que tomou conta daquela que antes era uma das mais belas praças do interior paulista. Do alto de sua imponência, ele vê, aos poucos, morrer um dos orgulhos da cidade.
Querer a velha praça de volta é pura utopia de um teimoso saudosista, é sonhar com o impossível. Mas, ver a praça ganhar vida novamente é algo perfeitamente plausível.

Pão com ovo

Minha mãe e meu pai, mais de meio século juntos e felizes sempre
Quando Deus uniu meu pai e minha mãe, com certeza sabia o que estava fazendo. Afinal por mais de meio século os dois caminharam juntos até meu pai subir para o andar de cima.
Aquela era uma união perfeita que entrelaçava a simplicidade e a força de vontade de meu pai com a perspicácia e o poder de convencimento de minha mãe. Quando ela antevia algo, bom ou ruim, sempre se colocava a frente e dava seu jeitinho para mostrar o melhor caminho para meu pai.
E assim foi em várias oportunidades, como na compra de uma das partes na fábrica de móveis onde meu pai suava para sustentar a família, na compra da casa de minha avó materna e em tantas outras situações. E, em todas elas, lá estava minha mãe para apoiar e dar o caminho.
Meu pai sempre trabalhou, desde a infância. Sua honestidade e força de vontade contrastavam com a simplicidade na hora de pensar. Mas minha mãe, com o sangue catalão de meu avô Antônio e napolitano de minha avó Carmela, estava sempre pronta para dar o empurrãozinho que faltava.
Lembro bem quando minha irmã mais velha concluiu o quarto ano primário no Júlio Mesquita e meu pai, por toda lei, queria que ela fosse aprender corte e costura com a Lia Pretti, pois acreditava que filha mulher devia ser costureira. Minha mãe, com seu jeitinho peculiar, mudou o rumo das coisas e convenceu meu pai a deixar que ela seguisse nos estudos e, assim, com a inteligência que Deus lhe deu, ela chegou à gerência do Banco do Brasil.
Mas, além dessa perspicácia, minha mãe também tinha um bom coração. Nos meus tempos de Júlio Mesquita, na hora do recreio, lá ia ela escadão da Ladeira São João acima para levar salada de frutas em um potinho de margarina que eu ficava esperando no portão da escola.
Quando chegou a vez da Claudia, a caçula dos três filhos, o cardápio era outro. Um ovo era transformado em omelete na hora e colocado no pão para que minha irmã comesse no recreio.
Um dia, ao saber que minha irmã repartia o lanche com a amiga de classe, imediatamente passou a levar dois lanches iguais, um para cada uma. Esse seu gesto, mais tarde, foi lembrado pela Rosângela Tonolli, a amiga do pão com omelete, que foi quem cuidou de minha mãe quando ela permaneceu na UTI da Santa Casa em recuperação devido ao pequeno AVC que a acometera.
Deus sempre sabe o que faz e quem ele une. Por isso meus pais foram felizes por mais de meio século, construíram a família com a força de meu pai e a perspicácia de minha mãe, um casamento perfeito para que tudo desse certo, como deu.

Pão com banana

Nelson da Costa, o Nelsinho Querosene

No meu tempo de criança, lá pelos idos da década de 60, noite sim e a outra também o quarteirão de casa se transformava em área de brincadeiras. Cada noite era uma modalidade, desde o pega esconde até os jogos de futebol.
Nas noites em que a bola rolava solta no ‘gramado’ de paralelepípedos, além dos garotos da rua, dois personagens eram figuras carimbadas nas peladas noturnas. Era só escurecer e os dois subiam a ladeira São João, vindos da coloninha, um conjunto de casas que havia ali perto do escadão que dava acesso ao bairro do Cubatão, para quem vinha da praça central.
Um deles era o Claudio Maria, que por nós era chamado de Claudio Pelé. Claudio morava na coloninha com os avós Pedro e Joana e sempre subia o morro para bater uma bolinha com a gente, apesar de ser mais velho que a maioria.
Com ele subia um outro personagem, igualmente morador da coloninha, onde dividia a casa simples com a mãe Clementina e as irmãs, entre elas a Dita, exímia cozinheira que por muito tempo serviu a família do Geraldinho Teté, e que gostava de uma pinga. Conhecido como Querosene ou Nelsinho Cascudo, Nelson da Costa, também mais velho que a maioria, não era um craque, mas corria e dividia as bolas com a mesma volúpia com que atacava um prato de comida.
E, via de regra, sempre que aparecia na rua de casa, Nelsinho Querosene estava faminto e, para não perder a viagem, batia palmas na residência do maestro Américo Passarela, vizinho de parede de minha casa, e sua esposa, a dona Olga, de bom coração, sempre lhe dava um prato de comida. Nelsinho batia o prato de comida e depois entrava na pelada, onde geralmente saía sem a ‘champa’ do dedão do pé, que ficava grudada em algum paralelepípedo mais saliente.
Mas, como nem sempre as pessoas estão com o humor em alta, um dia ele se viu em uma enrascada. Ao bater palmas na casa dos Passarela, Nelsinho ouviu a dona Olga, lá de dentro, avisar que não tinha comida. Esfomeado, perguntou se não tinha ao menos um pão com banana e resposta foi negativa novamente. De pronto, na sua ingenuidade, lascou: “nossa, a coisa tá feia então”. E foi aí que quase levou um carreirão da dona da casa.
Querosene, por muito tempo, ficou conhecido por nós como Nelsinho Pão com Banana por causa desse fato, mas nunca reclamou disso ou dos demais apelidos. Alma pura, sempre tratou bem todos os amigos que tinha na rua de casa.
Nelsinho, hoje com mais de 70 anos, ainda lembra desses fatos e daquele tempo bom, que subia a ladeira para matar quem estava te matando e ainda bater uma bolinha com a gente. Sempre que me encontra na rua lembra de tudo como se fosse ontem.

Unha encravada

Alexandre Redondano e sua esposa Stella Maris A vida nos prega peças, mas também nos oferece amigos para a vida toda. Amigos que mesmo q...