Bife a rolê enrolado

Meu pai, minha mãe e eu
Minha mãe sempre cuidou da comida com esmero, pelo menos enquanto a saúde permitiu. Sempre foi de fazer belas roscas, doces, pudins e outras iguarias, principalmente nas tardes de sábado.
Mas de seus dotes culinários também faziam parte pratos salgados e sempre experimentava alguma receita nova. Seu macarrão feito em casa, por exemplo, era de se comer rezando como dizem por aí quando a comida é boa, o mesmo se podia dizer do nhoque, que ela mesma preparava depois de ir ao mercadão e, de faca em punho, testar a batata para ver se dava liga.
Dizia que a batata boa para o nhoque era a binge. Ela cortava uma ao meio e juntava as duas partes outra vez. Se grudasse era porque dava liga e aí o nhoque seria de qualidade.
Mas, ao mesmo tempo em que cozinhava bem, sempre se preocupava com a família. Principalmente quando preparava algum prato diferente.
Certa vez, na hora do almoço, inventou de fazer bife a rolê. Lembro que o recheio tinha bacon, cenoura e outras iguarias que deixavam o bichinho com um sabor muito bom.
Naquele dia, como não tinha palitos para prender a carne depois de enrolada, deu uma de professor Pardal e amarrou cada bife com linha de costurar para que o recheio não escapasse quando fosse cozinhar no molho. A invenção deu certo e tudo ficou em seu lugar.
Mas, preocupada que ninguém se esquecesse de tirar a linha na hora de comer, avisou todos nós da tal da linha. A cada bife que saia da travessa era um aviso.
Até que aconteceu o inesperado. Mesmo avisando todo mundo que a linha podia enroscar na garganta e que era para termos cuidado, ela acabou esquecendo e comeu o tal do bife a rolê com linha e tudo. Imediatamente sentiu que tinha feito besteira e a coisa ficou ainda pior quando a linha fez sua parte e enroscou na garganta.
Passado o susto e refeita do problema, minha mãe riu dela própria por ver que avisou tanto a gente e acabou se esquecendo de tirar a linha antes de comer. Daquele dia em diante, cada vez que ela fazia bife a rolê, mesmo colocando os devidos palitos para segurar o recheio, já recebia o aviso de tomar cuidado com a linha.

Belas tardes de domingo

O Itapira AC ficou anos sem perder uma partida em casa
Mitos marcam os ciclos de nossas vidas e ajudam a formar nossa memória e nossa história. Quem nunca idolatrou um mito que atire a primeira pedra.
Nos meus tempos de adolescência tive meus ídolos e mitos. Não apenas aqueles inalcançáveis como grandes jogadores de futebol ou heróis de seriados ou histórias em quadrinhos.
Tive ídolos e mitos que viviam na mesma cidade e que podiam ser vistos a qualquer momento. Mas, era nas tardes de domingo que eu mais gostava de vê-los em ação.
Era no velho Chico Vieira, lá longe de casa, que eu passava minhas belas tardes de domingo para em 90 minutos ver o que eram capazes de fazer com a bola nos pés. Para mim eram verdadeiros heróis, pois treinavam no período noturno, quando treinavam, para depois enfrentarem os adversários nas tardes de sol escaldante.
Se na minha pré-adolescência tive a oportunidade de ver a Esportiva ser campeã da Terceira Divisão de 69, nos anos 70 foi a vez de idolatrar um grupo que, apesar das dificuldades e de não ganhar nada para jogar, ficou vários anos sem perder no Chico Vieira.
Vi muita gente vestir a camisa grená do Itapira Atlético Clube. Uns com maestria, outros nem tanto, mas todos com a mesma valentia.
E todos, sem exceção, se transformaram em mitos para os jovens e adolescentes da época. E tinham o respeito e carinho dos mais velhos.
Costumo dizer que sem personagem não há história para contar. E sem os ídolos e mitos não há feitos para relatar.
Aquele foi um tempo diferente, todos jogavam pelo amor a bola e a camisa que vestiam. Não havia chuteiras coloridas, cabelos descoloridos ou tatuagem encobrindo braços, pernas e outras partes do corpo.
Era um tempo mais romântico, um tempo em que muitos daqueles jovens se agigantavam dentro das quatro linhas davam o que tinham e o que não tinham pela vitória. Sem contar que algumas vezes saíam de um baile na noite anterior praticamente direto para o vestiário, mas mesmo assim estavam lá, prontos para a batalha que os esperava.
Ver as defesas de um Luizinho, um Sabadini, um Roberto Cremasco ou de tantos que envergaram a camisa 1 do time era fantástico. Assim como era bom ver o trato com a bola de um Almir, um Toninho Bellini, um Mineiro; a raça de um Pirulito, um Nelsinho, um Tadeu Venturini, um Carlinhos Mendes; a vontade e a capacidade para marcar um gol de um Dado, um Tuia, um Fifo, um Pedro Paulo, um Dé, um Kalu, um Cabrita e tantos outros que lá na frente tinham no meio-campo a maestria de um cara chamado Flávio Boretti.
Tempos bons aqueles! Nem sempre o dinheiro do ingresso estava disponível, mas meu pai, sabedor da paixão que eu tinha pela bola, colaborava e lá ia eu a pé até aquele templo do futebol, mas feliz por ter a oportunidade de viver mais uma bela tarde de domingo.
Mitos marcam os ciclos de nossas vidas e ajudam a formar nossa memória e nossa história. Esses foram meus mitos da juventude, que me ajudaram a construir minha memória e minha história.

Avenida sem biris


Avenida dos Biris, com as árvores que lhe deram o nome
A Avenida dos Biris sempre foi um dos pontos principais da cidade. Sua vista para a parte baixa que compreende o Cubatão, parte dos Prados e até a Vila Izaura, sempre foi algo deslumbrante, principalmente no nascer do sol, que desponta atrás das montanhas.
Suas frondosas árvores, que deram o nome ao logradouro, além de enfeitar, protegiam a encosta e ofereciam às crianças os biris que serviam para diversas brincadeiras. Desde a curva onde começa o barranco que divide o parque da Avenida Brasil, até quase onde hoje está a lanchonete, tudo era bem diferente.
A partir da luminosa ideia que alguém que se acha dono da cidade teve de mudar a avenida, acabou-se o que era doce. A Avenida dos Biris perdeu suas árvores frondosas, as crianças perderam seu brinquedo, a natureza perdeu o sentido e tudo ficou igual a qualquer outro lugar.
O encanto do local era a sua cara de natureza, os raios de sol entre os galhos dos birizeiros, a brisa soprando suas folhas, aquele ar bucólico e a vista que tudo isso proporcionava para quem por ali passava. Hoje, o que restou disso foi apenas a vista da parte baixa da cidade, algo que ser humano nenhum, nem mesmo aqueles que se acham donos de tudo, podem tirar.
Para quem não sabe, o birizeiro é uma árvore rara encontrada no cerrado, principalmente em Mato Grosso. Acabar com elas, além de acabar com um dos cartões postais da cidade, foi agredir a natureza. Qual cidade tem ou tinha árvores tão belas enfileiradas em uma avenida?
Hoje, a encosta do parque é cercada por uma mureta com balaústres, que serve apenas para que o lixo depositado por vândalos e negligentes fique escondido. Mas, quem se debruça na tal mureta para observar a vista, se olhar para baixo com certeza irá se deparar com uma montanha de garrafas pet, copos, sacolas plásticas, entre outros detritos.
Será que um dia o ser humano voltará a ter consciência que não se deve mexer com a natureza, mesmo que seja para se autopromover? Mexer no que é belo aos olhos de quem vê deveria ser crime inafiançável, pois só assim nossos patrimônios jamais seriam destruídos.

Unha encravada

Alexandre Redondano e sua esposa Stella Maris A vida nos prega peças, mas também nos oferece amigos para a vida toda. Amigos que mesmo q...